Livro
O Vampiro
Escrito com base em um fragmento inacabado de Lord Byron, o conto “O Vampiro” (1819), de John William Polidori, é a primeira narrativa em prosa em língua inglesa a apresentar um vampiro masculino. Criado como uma caricatura do próprio Byron, de aspecto donjuanesco e (literalmente) fatal, Lord Ruthven tornou-se o protótipo do morto-vivo aristocrático que serviu de base à disseminação dos vampiros pela arte mundial.
Primeiro parágrafo
Aconteceu que, em meio às diversões de um inverno londrino, surgiu nas várias festas da elite da moda um nobre, mais notável por suas excentricidades do que por sua posição social. Ele contemplava a alegria ao seu redor como se não pudesse dela participar. Aparentemente, o riso leve das belas damas só lhe atraía a atenção para que ele pudesse, com um olhar, reprimi-lo e infundir medo naqueles corações onde reinava a leviandade. Aqueles que sentiam esse temor não conseguiam explicar sua origem: alguns a atribuíam ao olhar cinzento e inexpressivo que, ao fixar-se no rosto de alguém, não parecia penetrar nem sondar, num único relance, os recônditos do coração; em vez disso, pousava na face com um brilho pesado como chumbo, que parecia oprimir a pele que não conseguia atravessar. Suas peculiaridades faziam com que fosse convidado para todas as casas; todos desejavam vê-lo, e aqueles acostumados a emoções intensas — mas que agora sentiam o peso do tédio — alegravam-se por ter em sua presença algo capaz de captar-lhes a atenção. Apesar da palidez cadavérica de seu rosto — que jamais adquiria um tom mais quente, fosse pelo rubor da modéstia ou pela forte emoção da paixão, embora seus traços e contornos fossem belos —, muitas mulheres ávidas por notoriedade tentavam conquistar sua atenção e obter, ao menos, algum sinal do que poderiam chamar de afeição: Lady Mercer, que desde o casamento servira de chacota por perseguir qualquer figura excêntrica que surgisse nos salões, colocava-se em seu caminho e fazia de tudo — chegando quase a vestir-se como uma saltimbanco — para atrair-lhe o olhar; mas em vão: quando ela se postava diante dele, embora os olhos dele parecessem fixos nos dela, era como se ela não fosse notada; até mesmo sua audácia inabalável via-se frustrada, e ela acabava por desistir da investida. Contudo, embora a adúltera comum não conseguisse sequer influenciar a direção de seu olhar, isso não significava que o sexo feminino lhe fosse indiferente; tamanha era, porém, a cautela aparente com que ele falava com esposas virtuosas e filhas inocentes, que poucos sabiam que ele chegava a dirigir a palavra a mulheres. Ele gozava, no entanto, da reputação de possuir uma lábia sedutora; E, fosse porque isso superava até mesmo o receio que seu caráter singular inspirava, ou porque elas se sentissem tocadas por seu aparente ódio ao vício, ele frequentava tanto as mulheres que são o orgulho de seu sexo graças às suas virtudes domésticas quanto aquelas que o mancham com seus vícios.